quarta-feira, 5 de julho de 2017

Quem vê caras....


Eu luto um pouco contra as 'ideias feitas' e os estereótipos, mas é claro que a nódoa cai em todo o tipo de pano 😌
Ilustração desse provérbio:
Tenho na minha rua uma lojinha a que não o que devo chamar. Lugar? Mercearia? Vende sobretudo hortaliças e fruta, mas tem um pouco de tudo. Um espaço pequeno, um pouco sombrio, propriedade de (um indiano ? paquistanês?) um homem de pele escura, sorridente, de português macarrónico, muito atencioso.
Os preços são impressionantemente baixos. E os produtos são saborosos embora sem grande aparência. A fruta, exposta fóra da porta, é pequenina e desigual, nada de encher o olho como nos expositores das grandes superfícies, e como está ao ar livre, sem refrigeração, vai amadurecendo conforme lhe bate o sol... Não há lá ar refrigerado! Mas a dita fruta, assim enfezada por vezes, tem muito mais sabor do a vistosa dos supers!!! Assim como os legumes, batatas, cebolas, alhos, é tudo baratíssimo e saboroso.
Não vou lá tantas vezes como a loja merecia porque se situa no caminho oposto ao que utilizo todos os dias, e esqueço-me dela. Mas já reparei que é frequentada por muitas velhotas (senhoras idosas?) da zona, que se calhar param ali quando vêm da Farmácia ainda mais abaixo depois de medir a tensão arterial... Ontem quando lá entrei um casal estrangeiro falava em inglês com o dono, uma conversa animada, ouvida com atenção por uma das tais velhotas. Quando ficámos sós, ela perguntou-lhe «Ah! Falas inglês?!». Fazendo conversa eu, sorridente e talvez com uma pontinha de superioridade, respondi-lhe «Com certeza que fala... Deve ser mesmo a sua segunda língua! Fala melhor do que português, e melhor do que nós...»
Com surpresa minha, a senhora de pele muito enrugada, cabelo grisalho mal penteado, vestido trapalhão, e sinais de muito poucas posses, vira-se para ele e começa a falar em inglês! Não, não era inglesa, as palavras saiam um pouco hesitantes como quem procura o termo mais correcto, era uma portuguesa a falar um bom inglês! Ele, bem mais à vontade do que eu tinha ficado, perguntou como é que ela falava tão bem, e ouvimos a resposta - tinha sido professora de inglês!!!
Senti-me envergonhadíssima com o meu preconceito.
Vendo-a naquele lugar e com aquele aspecto, automaticamente classifiquei-a como uma avozinha-dona-de-casa com os conhecimentos adequados à aparência. Creio que corei de vergonha.
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Pois é as caras não acertam com o coração, ou com o passado de cada um.

Cereja

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Dominó - branco ou preto




Li há pouco no twitter: «portugal dominó: o salvador não presta, o fernando santos é horrível, o marcelo é um troca-tintas, e o costa ainda vai matar-nos a todos»
Certo, era de um twitter que tem bastante graça, e mais uma vez foi tiro certo. Assim vai a nossa opinião pública. Um pêndulo (de newton, com várias bolinhas) 
Faz-me alguma impressão sobretudo quando esqueço a prudência e me deixo apanhar por um dos extremos, ou o facebook onde tenho quase só amigos que pensam como eu, ou o extremo dos comentários anónimos (?) dos jornais.
No caso do fb é mau para o mim porque acabo por não levar em conta que as pessoas que pensam exactamente o contrário de mim são tantas, tantas. tantas... e que a minha 'amostra' está muuuito viciada. No caso do dominó, ou antes 'jogo de damas', são só pedras brancas. Erro. Aliás o lado artificial do fb é notório quando alguém deixa uma foto pessoal, que recolhe sistematicamente comentários dizendo «liiinda!», «pareces uma estrela!», «lindíssima!!!» o que como se calcula não pode ser verdade. Faz-me sempre sorrir porque é um jogo - quem deixa a foto sabe bem que não é lindíssima, e quem diz os exageros sabe que lhe vão dar desconto.

No outro extremo, as pedras pretas, estão os 'comentários' dos leitores mais ou menos anónimos  que todos os dias se dão ao trabalho de «analisar» as notícias da imprensa. Por exemplo, um artigo do New York Times inventariando as mentiras do Trump desde que chegou ao governocoisa óbvia e que só refere factos. E, enfim, o New York Times é um jornal respeitável com mais de século e meio de existência, 118 prémios Pulitzer. Ora vejam, se tiverem curiosidade em ler os comentários que se seguem a este artigo ficam com uma ideia do que se passa na cabeça das pessoas! Exemplos tirados a copy/past :
a) Mentiras de Trump? ...ou mentiras sobre Trump...? b) Os media não se conformam com a vitória de Trump. c) ...e o anterior foi melhor? d) Os outros estavam mais preparados para fazer a mentira parecer mais verdade,aqui a única coisa é mesmo a perseguição que existe ao homem. *( ler no fim da página uns bem piores, com palavrões e tudo, escolhidos ao acaso) 
Poderia ser «normal» [hmm...] se lêssemos alternadamente outras opiniões, discordando deste lixo. Mas o que me deixa desnorteada é que isso raramente acontece! Neste caso, quando o li, em toda a página só lá estavam este tipo de comentários. E ocorre em todos os artigos que leio e onde me atrevo a ler comentários. De vez em quando aparecem uns ingénuos a querer deitar água na fervura, mas são logo corridos a poder de insulto e palavrão. As «caixas de comentários» dos jornais são caixotes do lixo, comentários grosseiros e com uma visão radical de direita de todo o mundo.
Impressiona-me.
Seria interessante que se fizesse um estudo sociológico - estão a fazer estudos por tudo e por nada! - para saber confirmar a classe socio-cultural destes opiniadores. Se, como parece, forem pessoas de 'poucos estudos' devemos refletir como é que a direita e até a extrema-direita domina tão completamente neste meio.
Mas para não me subir a tensão arterial vou voltar para o meu mundo confortável do facebook, irreal mas onde as discordâncias são aceitáveis.



Cereja
* e) Como sempre digo enquanto os caes ladram a caravana passa... chorem mais um bocadinho idiotas anti-Trump que ele promete oferecer-vos um lenço para limpar as lagrimas do vosso focinho kkk 
f ) impressionante como a FDP dessa media esquerdista nao se conforma com a vitoria desse grande homem que é o Trump. Os fdp criaram um inimigo de estimacao e alvo a abater nas suas cabecinhas cheias de mer... tipica da mentalidade podre esquerdista (pró bic...hanices apa- neleirados, lgbts, feminismos, ideologias degenero, mania da vitimizacao, e perseguicao das pobrezinhas minorias,etc) Para os anti-Trump aconselho que enfiem um desses supositorias pelo buraco do c-u acima que essa vossa  TRUMPOFOBIA passa logo...
g) continua a azia dos média, e ataques cobardes, com a tentativa de formatação da opinião pública.O que não entrou na cabeça dos média é que estão ultrapassados, e foram expostos nas  suas fakes news e ideologia esquerdalha.Ainda têm mais sete anos de azar pela frente. E os média portugueses vão na onda. ..em vez de informar opinam. Depois queixam-se da lixeira em que está o jornalismo, salvo raras excepções.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Uma cansativa luta quase diária

Havia uma ideia-feita, nos estereótipos mulher-homem, que afirmava que as mulheres gostam de fazer compras. Ponto final. Desde miúda que ouvia isso. Tinha dois aspectos a) como as mulheres gostavam, homem que é homem não se devia preocupar com isso b) metendo no mesmo saco tudo o que fosse compra ridicularizava um tanto a mulher mas de uma forma leve. Claro que ao sair de casa dos pais, dava conta que o papel higiénico não se materializava na casa de banho, e o pão depois de comido não voltava à caixa do pão. Alguém velava para que isso acontecesse....
E, sabemos que a maioria das coisas que precisamos sempre de comprar são necessidades, muitas vezes urgentes mesmo que rotineiras. E em Portugal, onde a média dos salários é ainda tão baixa, menos de metade da União Europeia, temos de olhar cuidadosamente para os preços e estar sempre a fazer comparações. Porque, para quem o não faz, o 'fim do mês' chega bem mais cedo do que o fim do ordenado.
Mas como o grande comércio tem uma ganância desmedida, a publicidade e os truques atacam em força. É uma guerra aberta, entre o consumidor e o grande vendedor. Muito cansativa... Truques aos montes: 1- os carrinhos dos supers são muito grandes porque vendo poucas coisas lá no fundo parece que se comprou pouco 2 - os produtos mais baratos estão nas prateleiras mais em baixo onde escapam ao olhar normal 3 - não é nada fácil comparar preços e quantidades ( é obrigatório mostrar o preço do produto ao quilo mas mal se vê o dístico onde isso está) 4 - muitas vezes vende-se quantidades enormes numa embalagem porque «sai mais barato» mas eles escoam os stocs e o produto vai apodrecer é em casa do comprador 5 - alguns produtos parecem baratos, mas as embalagens não são de meio quilo como parece, são 400 gr (uma libra ) que é um peso que não se usa cá,  etc, etc. Vivemos numa caça ao embuste mas legal (!!!)  que há cuidadinho com a lei...

E os letreiros? Quando há muitos, muitos anos vi pela primeira vez o 99 fiquei a pensar e sorri. «Olha que ideia! Menos um tostão?!»  Parecia-me ridículo. E era. Mas afinal estava psicologicamente certo. Hoje quase todos os anúncios usam o vírgula noventa e nove. Já não se usa escrever um preço sem apêndice. Mesmo quando um cêntimo não altera em nada o gasto que se faz. É o costume 😖
E há outro truque 'engraçado'. Há pouco fui quase vítima dele. Imagine-se muitos objectos num expositor e por cima um letreiro que se via bastante ao longe: TUDO A (em letras muito grandes) e por baixo letra ainda maior, 5 € . Hmmm... valia a pena. Como até precisava, escolhi um de que gostei. Já perto da caixa fui confirmar e li 20 €. Como?? Voltei a aproximar-me do cartaz, e lá estava, entre a linha do Tudo a e a linha dos 5€ estava, em letra bem pequenina, escrito partir de . Não era mentira que estava lá «Tudo a partir de 5€». Se calhar em 10 havia 2 de 5 €.
Este tipo de jogo é fatigante. Não se está entre pessoas de bem.
Hoje já não oiço tanto essa conversa das mulheres «gostarem» de fazer compras, talvez porque já vemos muito mais homens a empurrar carrinhos. E compreendem a canseira que dá detetar tanta armadilha. Uma guerra quase diária.


Não deviam ser 9 em cada 10 a usar o sabonete Lux, mas que inocência de anúncio!

Cereja

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Reflexões

Gostava de começar com um texto excelente que a Isabel Faria deixou no facebook. Diz  aquilo que eu gostaria de ter dito  * que neste caso gravíssimo do descontrolo florestal todos fomos culpados, porque, em certa medida, não levamos suficientemente a sério. Mesmo os mais activos e comprometidos politicamente não se preocuparam o bastante - fazíamos manifestações, abaixo-assinados, até greves, por questões laborais, problemas de saúde ou educação, mas a floresta era para 'os ecologistas' eles que se ralassem. Eu não atiro a primeira pedra. reconheço.
Mas há coisas de que oiço hoje especialistas falarem pela primeira vez, talvez porque 'hoje' têm tempo de antena, e oiço outras vozes, de há muitos anos. Tenho uma grande amiga que nasceu numa aldeia. Filha de pais rurais e sem muitos meios viveu na aldeia até aos 13 ou 14 anos quando começou a trabalhar (!). Refere que os terrenos dos pais e vizinhos estavam sempre limpos, e esses pequeníssimos agricultores até recebiam paga para 'permitir' que lhes limpassem as matas, porque se aproveitava tudo. A erva para comida do gado, tudo o que fosse galho ou restolho para o fogão e aquecimento. Os terrenos não ficavam com nada que pudesse arder, mas ela já há anos que dizia que essa limpeza agora sai caríssimo!
No outro dia ouvi na TV o eco das palavras da minha amiga, na voz de um engenheiro silvicultor, quase as mesmas palavras que ela usava. Uma das sugestões dele, era que os resineiros que só têm trabalho 8 meses por ano fossem pagos os outros 4 meses pelo governo para esse trabalho de limpeza do restolho.
Porque uma das coisas que eu não sabia era o peso do privado na posse de floresta ou, dito de outra forma, a pequeníssima parte  pertencente ao Estado. Afinal cerca de 85% da floresta portuguesa está em propriedade privada,apenas 3% pertence ao Estado, os restantes 12% são baldios.
Parece que a percentagem pertencente ao Estado é uma das menores da Europa. Três por cento! Ou seja se a posse é privada a responsabilidade de cuidarem deles também é «privada». O que complica muito essa responsabilização quando, pelo que se sabe agora, muitos proprietários nem sabem onde estão as suas terras 
Desmazelo? Confusão. Respeito total e absoluto pelo direito de propriedade? Ficamos de boca aberta de espanto. A propriedade é sagrada e este ponto?! 

Talvez pelo pior dos motivos agora haja um grande safanão. 
Nacionalizem tudo e devolva depois  a quem provar a sua posse. E com obrigação de cuidar verdadeiramente dela.  É certo que isto piorou muito com o cultivo do eucalipto que cresce depressa, dá lucro com a venda da madeira, mas é muito inflamável. É urgente cortar os que existem e não se plantar mais, mas não chega. É toda uma mudança, até de mentalidade, que se tem de fazer. As matas devem ser limpas como a nossa casa.
Afinal o nosso país, a nossa terra, é a nossa casa.

Cereja

* procurar o texto dia 21/
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terça-feira, 20 de junho de 2017

O Horror

Tinha vários textos em rascunho para deixar aqui no blog quando me apetecesse, mas agora não me apetece, sinto que neste momento até é de mau gosto publicar coisas leves ou engraçadas. Só me é possível pensar no pesadelo que se vive agora na nossa terra. Têm sido notícias sempre e sempre piores, quando se pensava que era apenas uma noite horrível, vamos vendo que o horror continua, mais e mais e mais e o incêndio expande-se e não se deixa controlar.
Mas uma coisa são as notícias, reais, de factos, objectivas, concretas, que são já suficientes para nos deixar apavorados. As audiências já só podem ser enormes, é impossível não o serem.
Portanto não é preciso serem aumentadas com os relatos de jornalistas como abutres a alimentarem-se do desgosto alheio, apanhados com o mais profundo sofrimento. E, infelizmente, todos, ou quase todos, ficamos de boca aberta com a inacreditável falta de ética jornalistica que muitos dos nossos repórteres mostram. Muitos. Também ouvi reportagens correctas, de jornalistas que correm riscos físicos para trazer informação, e a esses agradeço o esforço e aplaudo-os.
Mas.
Há já vários anos, quando a Diana Andringa foi presidente do Sindicato de Jornalistas, falando exactamente de ética ela disse-me que fazia parte das normas nunca se entrevistar ninguém que estivesse debaixo de grande emoção. Uma questão de respeito, creio eu. Recordo essa conversa muitas vezes. Fazia sentido.
Se calhar já nessa altura, há mais de 20 anos, a regra não se cumpria completamente. Mas, desde há uns tempos, com os tabloides portugueses e a tv também taboide, na verdade faz-se exactamente o oposto, provoca-se a emoção antes de a pergunta! Até parece que se o entrevistado não estiver debaixo de uma emoção extrema, de raiva, de paixão, de medo, de susto, é tempo perdido falar com ele...
A procura do sensacionalismo, como se a realidade não fosse suficiente, é constante. E não sou a única a pensar assim. Deu brado, com tanta repercussão nas redes sociais que já se abriu um inquérito na  Entidade Reguladora para a Comunicação Social a reportagem da TVI protagonizada por Judite de Sousa, que falava ao lado de um corpo. Não se entendia a falta de sensibilidade, tanto mais vinda de uma pessoa que já passou por um luto doloroso e foi respeitada no seu desejo de não ser exposta na dor. E que é professora de comunicação social! 
Mas foi um caso entre muitos. Demasiados! Expliquem-me como é possível fazer uma entrevista (?!?) a alguém que perdeu a mulher e duas filhas com 12 e 15 anos horas antes! Porque se insiste em perguntar «Como se sente?» a gente que tem de estar de cabeça perdida, louca de dor. A sofreguidão de captar clientes aos outros órgãos de comunicação social não pode justificar tudo!
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Afinal entre estas duas capas qual a que nos chama a atenção?
Qual a que tem mais impacto por ser inesperada?


Cereja

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Outra vez a educação

Volto sempre à vaca fria. A educação. Por educação não estou a pensar na escola, e sim no que se aprende desde bebé na intimidade da família, mais importante na minha opinião. Podemos sempre completar a escolaridade, há gente bem idosa que aprende a ler e escrever, mas o comportamento é moldado na infância.
Li há poucos dias um post da minha amiga Isabel Faria, no facebook. Relatava, no seu estilo pessoalíssimo, uma conversa que ouvira num café. O post,  não teve assim lá muitos comentários ou 'gostos', teve alguns é claro, mas merecia mais. Dizia ela: Quando ouço algumas conversas entre filhos adolescentes e pais de filhos adolescentes, ou pouco mais que isso, dou-me conta que sou mesmo muito careta. E que tive mesmo muita sorte. Acabei de fugir do café sem saber se me apetecia mais dar um grito na pirralha que dizia à mãe aos gritos "sei lá se vou jantar ou dormir a casa pá,, como e durmo onde quero..." Ou um tabefe à mãe que lhe pede em voz baixa e vacilante "Mas se puderes avisar...para eu poder dormir descansada...E tem cuidado com o multibanco...não percas esse também... ". São todos assim, ainda ouvi a mãe dizer à amiga...enquanto esta acenava com a cabeça que sim. Podia desmentir a senhora...mas, na volta, comigo ela ainda levantava a voz...
Eu não ouvi esta menina, mas tenho ouvido outras ou o relato de pais desconcertados sem saber como responder a atitudes destas. A verdade é que isto é uma semente que é plantada cedo. Recordo um menino num infantário, quase bebé, aí com uns 2 anos, que chamou a mãe que estava afastada a falar com alguém. Ela acorreu, apressada, e baixou-se para ouvir o que ele queria. Ele balança a mão e dá-lhe um estaladão que deixou uma marca na cara... A mãe, faz um sorriso amarelo, e diz-lhe «se era para isto escusavas de me ter chamado». Ouvi eu! 
Na história da teenager está tudo. Para começar o tom com que fala com a mãe. É um tom com que não deve falar com ninguém e/mas sobretudo com alguém mais velho. Quando eu era criança, entre raparigas usava-se o termo «coisinha». Chamávamos umas às outras, não sei como nasceu a mania. «Oh coisinha, vens ali comigo?» «Oh coisinha, fizeste o tpc de matemática?» Mas era ternurento, um modo carinhoso de falar. Certo dia, distraída, disse a uma avó «Oh coisinha, o que é o lanche?» e recebi um olhar que me pôs no lugar! «Coisinha?!!! Achas que tenho a tua idade?!». Fiquei logo em sentido. Numa família e deve haver hierarquias, por mais afecto que exista. 
E tem de haver autoridade. 
A inexistência de autoridade gera um caos. Não há limites para nada, como se tudo fosse permitido 'porque-sim' e ainda por cima estes jovens desatinados não se sentindo obrigados a nada, não tendo de prestar contas de coisa nenhuma a ninguém, decidem que têm todos os direitos. A menina desta história ouvida no café, declarava mal-criadamente que não tinha de dizer à mãe para onde ia, nem o que fazia, mas tinha acesso à conta da família com o cartão multibanco... Imagina-se que adulta vai ser? 
Comecei por falar no tom usado e na linguagem, porque me parece importante. Há regras que parecem em vias de extinção que não são de etiqueta são de simples cortesia. Cumprimentar com Bom Dia, dizer 'por favor', 'obrigado', 'com licença', mostra que nos importamos com os outros.
Simples.
Não se vive sozinho, vivemos em sociedade. 



Cereja

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Luxo

Ultimamente ando um tanto 'revivalista' só me dá para escrever coisas a relembrar outros tempos, e tenho-me refreado resultando assim que não escrevo nada 😖
Parvoíce. Vou portanto deixar 'em linha' um post já escrito há uns dias.
Então «é assim»: Na minha juventude havia pessoas bens vestidas e outras mal vestidas. O considerado bem vestido nem sempre se sentia cómodo, porque a roupa cómoda era a prática, digamos a-de-trazer-por-casa. Não se tinha 'inventado' o fato-de-treino como roupa descontraída, portanto a tal roupa de estar em casa era uma mais velha, ou de um material de pior qualidade. Como não havia 'pronto a vestir' as famílias de classe média, contratavam uma costureira que fazia os vestidos das senhoras e a roupa das crianças. E também aproveitava o que já estava velho e roto, muitas vezes até pondo remendos. Os pobres, que andavam mal vestidos com roupa de trabalho, até podiam usar roupa remendada, era natural.
Nos anos 80, creio eu, apareceram umas jeans manchadas e até rasgadas! Lembro-me de quando vi o meu primeiro pensamento ter sido «coitada, que azar, umas calças tão boas; mas vá lá, concertam-se e ela não está muito aflita». Não estava, é claro, tinha-as comprado assim!
Era moda! A rebeldia jovem assumia-se pelo visual, era-se 'contra' mas... artificialmente, o que faz toda a diferença. Não eram fatos velhos e por isso estragados, eram fatos novos, falsamente estragados e caros (!). E essa moda de falsos pobres, nunca mais parou. Afinal as rastas, também uma moda de penteado onde o cabelo parece desgrenhado e até sujo, leva tempo a fazer e a... manter limpo!
Ora o que me faz alguma impressão é o preço destes produtos artificialmente «estragados». Li a notícia de que um par de tenis custariam 1.500 euros. Exactamente, mil e quinhentos euros. É claro que não eram uns ténis quaisquer, estavam todos rotos. Parecia terem vindo de um caixote do lixo. Imagino que se os tivéssemos deixado num daqueles depósitos de roupas usadas para serem aproveitados para quem não tem que vestir, nem seriam aproveitados.
Mas foram concebidos por John Galliano. Valem 3 salários mínimos.
Ou o saco quase igual ao do Ikea a 2.000 euros, cerca de 4 salários mínimos.
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Parece escrito com azedume, e não é, palavra.
É espanto de viver neste mundo.
Onde as desigualdades apresentam estes aspectos absurdos, ter de se ser muito, muito rico, para usar peças que imitam os muito pobres. Este tipo de luxo faz-me impressão, o que querem...? 



Cereja

sexta-feira, 2 de junho de 2017

No Dia da Criança


Ontem foi Dia da Criança.
Não sou lá muito entusiasta dos «dias de», gosto do dia da mãe, do pai, do trabalhador, da mulher, e pouco mais. Até porque muitos deles são descaradamente «dias» inventados pelo comércio para aumentarem as vendas. Mas, adiante.
O Dia da Criança é um bom dia para se pensar nas crianças, não (só) para lhes dar prendas, mas sobretudo para refletir no que falta fazer para lhes assegurar uma vida que valha a pena.
Ontem receberam uma grande prenda envenenada: o sr. Trump na sua ânsia de um lucro imediato sem olhar a mais nada, propõe-se estragar ainda mais o mundo em que vão viver. Nem há palavras para classificar tanta maldade.
Mas, na nossa terra, num país que gosta tanto de crianças, e se esforça por as proteger, li uma notícia que me deixou gelada e até me custa acreditar! Dizem-me que num só ano 43 crianças candidatas a adopção, que já viviam com os futuros pais adotivos foram devolvidas. Como? Devolver uma criança?!!!
Como retoque final é-nos explicado que 20 delas tinha menos de 2 anos. (realço este pormenor porque há quem considere que adoptar um adolescente pode ser problemático, é uma fase difícil, e a adaptação nem sempre corre bem)
Eu sei, (ou sabia...) que os serviços de adopção eram exigentes na selecção dos candidatos. Muitos não são aceites. E, daquilo que eu julgava saber, irritava-me que existisse um período demasiado grande até a adopção se concretizar, porque para uma criança uma espera de dois ou três meses já é uma parte importante da sua vida.

Portanto, até ontem, eu julgava que 'os maus da fita' eram os serviços que exageravam o rigor na selecção, quando se poderia entregar muito mais crianças a pais responsáveis que os desejavam muito.
Pelos vistos, isso não acontece. Considero uma maldade muito grave abandonar-se um animal de estimação, como creio já aqui ter dito. É um sofrimento horrível para o animal e um verdadeiro crime. Mas uma criança??? É certo que não é «abandonada» é reenviada para o sítio de onde veio, tal como ir à loja entregar a boneca que se comprou porque afinal ela não era como se tinha imaginado.
É certo que não sabemos o que motivou esta «devolução do produto» e consigo imaginar uma situação inesperada de tal gravidade que faça voltar tudo atrás (morte de um dos pais, desemprego inesperado) mas 20 situações ?! Causas tão imprevistas que quando a criança foi lá para casa não se podia imaginar?

Não entendo.
E arrepia-me. Como é possível?


Cereja

terça-feira, 16 de maio de 2017

«Não me sinto um herói nacional, isso é para o Ronaldo»


Pronto! Se a nossa autoestima não está alta então nunca estará!
Apesar de detestar os estereótipos sobretudo quando classificam povos, aceito que «os portugueses» são excessivamente auto-críticos ☺ 
Aceita-se e até se aumenta as críticas que nos fazem. Irritante. E cansativo também porque até parece que em Portugal raramente se faz uma coisa que nos orgulhe. Ora bem, se no espaço de um ano termos ganho 2 troféus que indicam que nestas modalidades somos 'os melhores da Europa' - falo, é claro, no Campeonato de futebol e no Eurofestival - não ficamos com uma boa autoestima é porque nada a faz subir.
Houve quem resmungasse. Quem achasse que não tinha importância.Olhem, faço minhas as palavras da minha amiga Isabel. Mais nada.
Por mim gostei imenso do resultado do concurso da Eurovisão. Imenso. Gostei da canção, sobretudo da música embora a letra não envergonhe ninguém. Gostei da interpretação. Gostei da apresentação. E pasmei que aquilo que será visto como uma canção «não festivaleira» tivesse dado aquela reviravolta aos votos habituais. Porque foi mesmo uma dupla vitória, foi apreciada pelo juri oficial que nos deu o primeiro lugar e, o que mais pasma, pelo juri' popular, que votou por telefone e sem poder votar no seu próprio país. Uma unanimidade que só nos pode alegrar.
Eu, nada entendida em música, aprendi várias coisas da área. Não fazia a menor ideia o que era o «pop tradicional» ou «pop clássico», Quando ouvi essa referência em relação àquela música não percebi nada -  pop? pensei eu, mas que pop? . Senti sons de jazz, e lembrou-me as valsinhas brasileiras sim. Afinal fiquei com os meus conhecimentos aumentados ☺
E gostei também muito, pelo menos até agora, do comportamento do cantor e irmã autora. O Rui Tavares escreveu ontem no Público, que o gesto agarotado de Salvador de colocar o troféu na cabeça no final, tinha uma leitura simbólica «Como é que eu meto na cabeça que ganhei o prémio sem deixar que o prémio me suba à cabeça?» Ora até agora tem conseguido.


Mais um motivo para os parabéns!

Cereja

domingo, 7 de maio de 2017

Cuidados aos mais velhos


Há uma mania, pensando talvez numa simetria como se o início de uma vida fosse idêntico ao seu final mas exactamente ao contrário, que quem se ocupa de pessoas idosas tem frequentemente e que é tratar alguém com muitas e muitas dezenas de anos como se fosse uma criança. Com ternura, sem dúvida, exprimindo até carinho, mas olhando de cima para baixo, numa protecção ...ofensiva.
Direi até que se usa uma atitude que uma criança dos tempos de hoje (rebeldes e independentes como a maioria é) não ia aceitar.
Li recentemente num portal brasileiro chamado «Portal do envelhecimento» uma opinião que partilho em relação a isto : Falar com idosos como se fala com um bebé é desrespeitoso, não fofo!
Há vários filmes bastante engraçados onde se imagina um adulto voltar a ser criança ou uma criança passar a ser adulto. Ainda me lembro de um, chamado De repente 30 anos!, Engraçado. Uma adolescentezinha que ao fazer 13 anos, descontente com a sua vida, deseja ter 30. Por magia isso acontece, e é uma enorme decepção, claro. Se isso acontecesse aos assistentes sociais, enfermeiros, os vários cuidadores de pessoas idosas e uma manhã acordassem com 80 anos e ouvissem que falavam com eles em «Elderspeak»?! * (existe mesmo, está catalogado!)  Ai, ai, ai.... Que susto e surpresa desagradável.
O modo de comunicar está baseado em sentimentos, como se sabe. Não o que se diz, mas o «como» se diz. Evidentemente que se a pessoa a quem se fala está a ouvir mal, temos de falar alto. Isso em qualquer idade, não é? Se nos cruzamos com um nosso vizinho de prédio e notarmos que está a ouvir mal levantamos o tom de voz, mas não dizemos «Booom Diiia... Como está meu amiguinho? Se calhar não fez um bom ó-ó , aqueles maus do 3º esquerdo fizeram taaanto barulho!» Mas afinal é o que muitas vezes se usa para com uma pessoa mais velha.
A intenção é boa. Acredito que seja por bem, por isso imaginei como seria se uma manhã estas pessoas bem intencionadas acordassem «De repente, já com 80!» como no filme. É verdade que há ternura mas falta a componente do respeito. E quando há fragilidade associada à idade avançada, o respeito é apreciado, não tenham dúvidas.




* Elderspeak, é caracterizada por uma fala lenta, entonação exagerada, volume elevado, com uso intencional de vocabulário simples e reduzida complexidade gramatical, mudanças no afeto, substituições de pronomes (“como estamos hoje?” Em vez de “como está D. Alice? por exemplo), diminutivos e repetição

Cereja